Comida feita pelos outros é mais gostosa?

Seria esta uma das grandes questões que movem o ser humano, talvez? Ou seria apenas mais uma das perguntas que passam pela cabeça de quem pilota fogão em dias de enfado e de pouca inspiração?

Já escutei algumas explicações, todas elas de cunho prático: dentro da cozinha os cheiros se misturam e então as sutilezas passam um pouco desapercebidas, ou então a sensibilidade alheia e o paladar são outros, daí a diferença e a novidade aguçam o interesse. Faz sentido. Claro, há casos em que a comida alheia funciona como estímulo para quem cozinha voltar e fazer melhor, fazer mais – vamos ser claros aqui, quando a comida feita alhures é ruim, desagrada. Há casos em que o comensal é o tipo enjoado e sistemático, e então vai se ressentir de qualquer forma da falta do preparo que lhe é familiar.

Aventuro-me por cozinhas alheias com gosto, ainda que seja para comer com os olhos. Uma das minhas preferidas é a da Neide Rigo, nutricionista, culinarista e pesquisadora dos modos de comer, multiplicadora de conhecimentos.

Costumo me maravilhar, em primeiro lugar, com a simplicidade que exalam seus relatos e das suas ideias a respeito de comida – ela valoriza ingredientes locais, a variedade de possibilidades de preparo, o aproveitamento máximo dos alimentos, aquilo que não se come na cidade grande repleta de produtos industrializados e de modismos. O que ela prepara tem cores bonitas, alimenta os olhos e nutre o corpo, fertiliza a mente.

Gosto especialmente da série de postagens que ela chama de “Quintas sem trigo”, em que ela apresenta dicas interessantes de cozinhar sem a onipresença da farinha de trigo refinada, tão branquinha, tão uniforme, tão pouco interessante: mandioca, banana, arroz, fubá, tapioca… Também me encantam seus relatos de viagem dentro e fora do país, construindo com famílias conhecimentos sobre alimentação – são relatos de mútuo empoderamento, porque alimentar pessoas é poder, é criar e manter vida em condições de seguir adiante e prosperar (ei, não estou falando aqui simplesmente de fazer dinheiro não, viu?). Neide também tem falado sobre um projetinho que surgiu entre um grupo de amigos que participa de um piquenique periodicamente: identificar e recuperar mudas de árvores, sobretudo frutíferas, que estejam pela vizinhança em situação de risco e possam ser transferidas, replantadas, salvas. É interessantíssima a participação das crianças, numa época em que a molecada está mais habituada a nomear os super-herois que aparecem nas embalagens de salgadinhos industrializados do que a reconhecer pimentões, pêssegos, batatas-doces, milho em espiga, vagens (Jamie Oliver fez uma palestra bem interessante no TED sobre alimentação e crianças: Teach every child about food. Aqui tem a versão legendada do vídeo).

Então é essa minha receita da semana: dar um passeio em cozinhas diferentes, com outros cheiros, outras ideias, outras cores. Divirtam-se, saboreiem.

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Sobre Deh Capella

Baby we were born to run.
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2 respostas para Comida feita pelos outros é mais gostosa?

  1. Tão verdade é isso, que até nissin quenojo dos outros é melhor. rs
    Portanto quem quiser me convidar pra comer, fica a dica…estou disponivel! Mas que seja algo mais bem elaborado que miojo… rs

  2. Deh disse:

    Blergh, quem for me convidar nem vem com miojo, prefiro pão com queijo honesto e simplesinho, mas miojo nããão, eca eca.
    Bom ver vc por aqui, vizinho! :*

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