Parece Que Foi Ontem…

…o quê? pra começar, parece que foi ontem o meu dia de postar. E foi. Mas havia uma pia cheia de louças do jantar da sexta com amigos, havia um Mad Man pra conhecer (e ficar viciada), havia um filho de férias e havia, bem, muita “adultice” em mim. Então, como quem chega atrasada à própria festa, corro pra responder o desafio que a Fabiana lançou aqui:

E o desafio que proponho essa semana é: crianças na cozinha, o que faz a alegria da criançada? O que você faz com suas crianças na cozinha? O que te fazia feliz na cozinha, quando você era criança?

Parece que foi ontem que eu ficava sentadinha à mesa da cozinha, papeando com minha mãe enquanto ela fazia suas mágicas no fogão. O que eu gostava mesmo? Me deixava feliz paca lamber as vasilhas: o liquidificador depois de bater um creme de manga ou abacate, a bacia onde foi mexida a massa do bolo, a forma depois de retirado o pudim…claro que não era só eu. Tenho duas irmãs e um irmão, daí em certos dias primávamos pela partilha, em outros assumíamos a disputa. De qualquer jeito, sempre começávamos arrumadinhos, comendo com uma colherinha…daí a pouco enfiávamos a mão no troço e nos lambuzávamos de sabor, liberdade, cumplicidade. Acho que o mais gostoso era a gente saber que podia.

São muitas as lembranças com cheiro e sabor. Parece que foi ontem que eu vinha correndo das brincadeiras na rua, tomava banho rapidinho pra jantar arroz de lei com costelinha de carneiro torrada, parece que foi ontem que eu ajudava minha mãe a fazer café e chapéu de couro logo cedo (embora bebesse leite com toddy), parece que foi ontem que meu pai fazia (e faz ainda, tradição que permanece) uma cara marota e dizia: hoje a cozinha é minha e fazia maria isabel, macarronada, lombo de porco no forno e, claro, a maior alegria, oriocó na sexta. Sem falar do colo de vó com gostinho de tapioca ou biscoito com nata.

Eu só tenho um filho e, pra sorte dele, a cozinha da avó sempre esteve aberta pra ele como pra mim. Também faz parte do seu bauzinho de memórias adolescentes muitos sabores que estão no meu: bolinho de chuva, lasanha, polenta (a do ceará, não a do sudeste), canjica (idem)…

Na nossa cozinha mais íntima: arroz com linguiça ao molho. Não tem erro. Descasca batatas, corta em quatro e aferventa (sem deixar amolecer demais) na água com sal. Corta a linguiça em rodelas. Coloca pra refogar com cebola e alho. Depois despeja molho de tomate (eu faço um pouco de molho eu mesma pra esse primeiro momento, aí a linguiça pega esse primeiro sabor) e deixa cozinhar. Se o molho começar a engrossar ou secar, vai completando com mais molho (aí eu geralmente uso o industrializado). Quando a linguiça está quase pronta coloca a batata junto pra terminar de cozinhar. Com arroz branco, meu menino adora. Ele sempre por perto na preparação do prato, cortando a cebola e as batatas (depois de poder manejar a faca), tirando as sementes dos tomates, provando o sal, etc.  Outro que não nos escapa é camarão alho e óleo. Desde que ele tem uns onze ou doze anos, é assim: eu tempero, ele frita. Acho que o que mais define o espírito na nossa cozinha é participação e cumplicidade.

Parece que foi ontem, mas hoje ele tem 1,97cm.

Agora quando eu vou receber muitas crianças (de todas as idades, de 2 a 72 anos) não tem nada que agrade mais (do que servi até hoje) do que o bom e velho cachorro-quente. Parece que foi ontem, mas vai ser hoje que vou jantar com meu filhote vendo jogo de futebol e nos lambuzando de salsicha com molho….

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Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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2 respostas para Parece Que Foi Ontem…

  1. renatalima91 disse:

    Lembro da minha avó, fazendo brigadeiro de colher para mim. Assando bolinhos em latas de goiabada para os aniversários e casamentos de bonecas. De carne moída com batatinha. Goiabada, no tacho, e biscoitos assados em tabuleiros feitos de latas de óleo, espremidos no pano com um furinho no meio, e fazendo nossas iniciais, uma para cada neto.
    Parece que foi ontem.

  2. ah, querida, suas lembranças são tão ternas, quentinhas, aconchegantes que quase me fazem sentir como minhas. Parece que foi ontem que estávamos rindo juntas. Por sorte, será de novo quase amanhã…

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