Sabores emanam do papel…

Papel é uma massa à base de celulose que, dizem, não se mexe, não tem som, não tem cor, não tem cheiro nem sabor. Tolos, insensíveis, pobres daqueles que não sentiram subir das páginas o cheiro da comida fumegante nas travessas, que não ouviram o som daquilo que está fritando ali na cozinha ou do alimento crocante sendo triturado vagarosamente na boca. Precisam aprender a ler ou precisam pelo menos escolher livros melhores. Pode ser também porque não gostam muito de comida – sim, existe gente assim. Paciência.

Minha primeira referência, bem óbvia, é a Tita de Laura Esquivel imprimindo suas emoções na comida que prepara e transmitindo as mesmas sensações que ocultava àqueles que provavam dos pratos caprichados. Então toda a mágoa da moça que via a irmã se casando com o homem que ela mesma amava chegou aos convidados da festa de casamento, que caíram em um pranto inexplicável ao provarem o bolo, a cuja massa se misturaram as lágrimas de apaixonada preterida. Porque cozinhar tem muito de química, de alquimia, de misturar ingredientes, elementos, e por que não sensações? Vejo da mesma forma o cozinheiro e o escritor, planejando, incorporando alimentos e personagens à massa, aquecendo, esfriando, finalizando um prato. Ou uma narrativa.

Guardei meu sabor vindo das páginas por uma semana antes de vir mostrá-lo aqui. Ele chegou por meio de um livrinho leve e interessante que dei à minha mãe (e claro, peguei emprestado depois) há vários anos: o norteamericano Tim vai viver na Itália com sua esposa, no vilarejo de Montecchio, e narra episódios da vida diária e da convivência com os nativos. Histórias não necessariamente de choque entre culturas, mas de contrastes e de (re)conhecimento mútuos costumam ser saborosas, e Meus vizinhos italianos é exatamente assim (se você lê em inglês pode vir aqui degustar um pedacinho das impressões do autor).

Mas aí tem a parte da comida, da bebida, e a boca se enche d’água quando é descrito todo o processo de engarrafamento de vinho, que mobiliza todos os moradores do pequeno condomínio onde Tim e a esposa estão vivendo. Uma vez engarrafado, o vinho é dividido entre os moradores e então uma das providências do casal é preparar a grande travessa de pêssegos cortados que ficarão imersos na bebida, dentro da geladeira. Os dias calorentos no Vêneto e um pote cheio de pêssegos embebidos em vinho, gelados – tem imagem mais deliciosa?

E então eu vou dizer que, meus amigos, eu pouco bebo vinho, pelo motivo prosaico de que me acabo na enxaqueca; aliás, consumo pouquíssimo álcool por isso. Mas até hoje imagino a cor da travessa, as frutas partidas já rosadas, o vinho geladíssimo, o cheiro da bebida, e pouca coisa me encanta mais. Prometi a mim mesma tentar reproduzir a delícia um dia e até hoje não cumpri, assim como a velha promessa das peras ao vinho. Qualquer dia desses. Por enquanto me embebedo com os sabores e aromas transbordando das páginas e deixo vocês com uma receitinha que encontrei e que me encantou por não ter aquela babação de leite condensado, açúcar, ieca (porque combinemos, não precisa, certo?). Até semana que vem!

Ingredientes:

1 laranja
125 ml de água
1/2 pauzinho de canela
1 cravo
raspas de casca de 1/2 limão
300 ml de vinho tinto
4 pêssegos grandes descascados, cortados ao meio e sem caroço
1 colher (sopa) de amido de milho
raminhos de hortelã e pauzinhos de canela para decorar

Modo de fazer:

Descasque a laranja e reserve a casca. Esprema o suco. Junte o mel, a água, a canela, o cravo e o suco de laranja em uma panela grande. Acrescente a casca de limão e uma tira da casca de laranja cortada bem fina. Cubra e leve em fogo alto. Acrescente o vinho e os pêssegos. Leve novamente à fervura. Reduza o fogo e deixe cozinhar por 20 minutos.Quando os pêssegos estiverem macios, retire-os e deixe esfriar um pouco. Fatie cada metade dos pêssegos separando seus segmentos.Bata o amido de milho com um pouco de água até dissolvê-lo completamente. Acrescente a calda na panela e leve à fervura, mexendo frequentemente até engrossar.Peneire a calda e coloque-a em cada um dos quatro pratos de sobremesa. Divida as fatias de pêssegos entre os pratos e decore com os pauzinhos de canela e raminhos de hortelã. Sirva quente ou bem gelado.

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Sobre Deh Capella

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