Minha Fome

A cozinha é minha. A casa é minha. Sozinha, passeio nos silêncios de cômodos que são espelhos do sem som que é o aqui dentro. Eu tenho um coração, acho. Mas está calado. Não há estetoscópio que decifre o soletrar do vazio. Abro as janelas de madeira para despistar as trancas que mantenho firmes onde interessa. Há luz, é manhã. Faço café enquanto desafino uma música do Chico. Continua aqui. 

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Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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2 respostas para Minha Fome

  1. Renata Lima disse:

    Como pode ser assim, tão minha e tão sua?
    Como viver sem a cozinha, sem o café amargo, sem a vida doce, sem a gargalhada?
    “Não tenha medo de sabores. Não tenha medo dos cheiros. Não tenha medo…”
    Não terei. Não teremos.
    Sem medo, só saudade.
    A saudade de você, eu alimento todo dia.
    A saudade de você é gostosa.
    Como você.
    (ops, sem trocadilhos infames, Renata! Mas foi irresistível! Mais forte que eu.)

  2. Luciana disse:

    Adoro trocadilhos infames, lembra que o bom senso fica um passo atrás do senso de humor. Sou grata por ter você na minha vida.

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