Do fel ao céu

Minas são muitas.

Minas não tem mar, mas tem bar. Muitos. Para todos os gostos e todos os bolsos.

E tem tira-gosto.

Expressão interessante, tiragosto (sempre erro o hífem, podiam acabar com todos, e a crase, mas deixar o trema. Adoro o trema. Lingüiça pra mim sempre terá o trema. E idéia sem o acento agudo fica uma coisa tão chocha, sem sal. Sem gosto.)

Cachaça mineira

Em Minas, terra das melhores cachaças, vide o ranking 2011 da Playboy – adorei que tem a Bel Coelho como uma das degustadoras –  não podia deixar de ser um lugar de tiragostos, petiscos para acompanhar a bebidinha.

Cerveja gelada, um bom tiragosto, um cachacinha, um papo bom fluindo.

Mesa de boteco é lugar onde nascem idéias geniais, idéias capazes de mudar o mundo, idéias e idéais, brigas cordiais, abraços emotivos, paqueras, reconciliações, nascem amizades para a vida toda ou pelo menos até a proxima rodada de cerveja.

Em Minas, especificamente, em BH, temos até um campeonato de “comida de buteco”. Eu fui aos primeiros, mas não gosto muito do que virou, bares lotados, tiragostos muito sofisticados, invencionices demais. É divertido, mas virou indústria. É o maldito sistema capitalista, se apropriando de uma das mais democráticas invenções do povo.

Em um boteco legítimo, sentam-se o ajudante de pedreiro e o juiz, e compartilham uma cachaça e um torresmo. Ainda que em mesas diferentes. Ali, todo mundo é “doutor” e ninguém é “senhor”.

Despimos das “excelências” e salamaleques, e no fim do expediente, o operário de macacão e o advogado de terno são iguais.

O meu tiragosto preferido, meu petisco suprassumo, é o fígado acebolado, na chapa, acompanhado de uma cerveja bem gelada.

Fígado.

Fel.

O fígado é o responsável pela produção da bílis, líquido amargo, que ajuda na digestão dos alimentos. Quando a gente exagera na cachaça, o pobre fígado fica traumatizado, e produz bile em excesso. Quem nunca passou um mal de vomitar bile não sabe a sorte que tem. Eca.

O gosto do fel é amargo. Mas o fígado de boi, bem fresquinho, tostado levemente mas úmido por dentro, com rodelas grossas de cebola, e até de jiló, são um pedaço do céu.

Iguaria do céu!

O melhor fígado que já comi, foi no sítio do meu pai. Um vizinho havia matado um boi, coisa rara, e o povo lá na Grota não gosta de carne de “gado”. O costume é carne de porco (fabulosa, diga-se de passagem).

Estávamos eu e mamãe na varanda do sítio, tomando cerveja, num sábado, quando passa o vizinho, e entra para cumprimetar.

– Ei, comadre!

Todo mundo é comadre e compadre no interiorzão.

E ele perguntou pelos parentes, minha mãe perguntou pelos dele, aquela coisa de interior, onde as pessoas ainda perguntam pelos outros.

E ele estava com uma sacola com um pedaço sangrento de alguma coisa.

Minha mãe, curiosa, perguntou o que era, e ele disse que era suã, do boi que mataram, e que ia dar para um vizinho. Perguntou se queríamos um pedaço. Minha mãe não resistiu e aceitou. Junto com o tal suã, estava o fígado, inteirinho, fresquinho…

E ele disse que iam jogar fora, porque tirando o suã, o povo não gosta de miúdo de gado.

Opa!

Fígado, cebola, jiló, cerveja.

E caipirinha.

E uma ressaca de matar no dia seguinte…

Então, para que o fígado não se transforme em um transtorno depois de ser apreciado com cerveja, maneire na caipirinha! Lição para a vida!

Misturar cerveja com cachaça?

Pode. Mas pouca cachaça, e sempre comendo alguma coisa, para ativar o fígado (o nosso!) e não passar mal depois.

E caipirinha é um perigo, porque leva açúcar. E o bom bebedor de cachaça sabe que caipirinha, se misturada com cerveja, não vai prestar. Ou no caso, a má bebedora de cachaça que vos fala…

Mas vá em frente!

Experimente!

Se ficar de ressaca, daquela de vomitar a água que engoliu a custo, tenho a receita infalível!

Gatorade e sopa de pacote!

Sabe aquelas sopinhas industrializadas, cheias de sódio, incubadoras de câncer? Pois é. Faça uma caneca, espere esfriar bem, e tome aos golinhos, devagar pra não irritar o pobre estômago e ativar o fígado (o seu) que estará também preguiçoso depois de digerir tanta cachaça… ah, sim: água de fubá, bem temperada, também serve. O importante é o tempero, forte, bem salgado. Por isso os gringos usam o “Bloody Mary” para curar ressaca, porque leva pimenta e tomate, logo tem bastante sódio para acelerar o fígado.

E bom final de semana!

 

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5 respostas para Do fel ao céu

  1. Eu amo fígado! Bife de fígado acebolado é um dos meus pratos favoritos, se não for “O” favorito. Adorei a história, me fez viajar ao tempo em que era criança ouvindo os vizinhos chamarem minha avó de comadre. É coisa do interior mesmo, de qualquer canto do Brasil, mas muito mais de um tempo em que as pessoas tinham tempo para olhar e se preocupar com os outros.
    Bom final de semana pra ti também!
    =***

  2. Felipe disse:

    Olá. Vi que linkaram para o Mapa da Cachaça e gostei de encontrar esse blog de mulheres que gostam de cozinhar e falar sobre gastronomia. Vcs já viram os videos de receita que estamos fazendo com a chef Bia Goll? Deixo aqui o convite para vcs conhecerem mais essa dica gastronomica. http://mapadacachaca.com.br/videos/costelinha-de-porco-na-cachaca/#content

    bjo

  3. Eca. Sou mineira e detesto fígado! Assim como detesto frango ensopado, carne cozida, jiló com carne moída… rs Eu sou chata demais, fresca. Tem jeito não.

    Mas a história foi deliciosa, ainda mais a dica sobre a ressaca. Minha mãe combatia a ressaca dela com Bloody Mary, aprendi a fazer criança pra ela…rs

    Hoje fiz comidinha mineira aqui, uma das poucas que gosto: Feijão tropeiro e sobrecoxa assada. lol

    Bjs Re!

  4. Baby, baby, baby, vou tratar de comprar uma passagem e me deixar mineirar com e por você. Gosto de fígado e de um certo travo na vida. Gosto dos seus posts, muito. E mais de nosso bem querer. Vou ali bater uma bebida – sem esquecer a parte pro santo.

  5. Pingback: Celebração! | Feministas na Cozinha

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