Um Sabor Amargo

“E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
– Eu faço versos como quem morre.”

Você tem um pai. Ou irmã. Um primo. Uma vizinha. Um amigo. Uma tia. Um colega. Uma amiga. Você tem. Você tinha. Tinha? Ou tem? Você não sabe. Um dia eles saíram pra trabalhar, pra ir à faculdade e não voltaram. Ou voltaram, estavam em casa, bateram na porta, eles foram levados e não apareceram mais. Você tem. Tinha. Você não sabe? Você sabe, já faz tanto tempo e você sabe, naquela dor amarga que não há volta. Mas você não tem certeza. Você só tem vazios. Perguntas. Você tem ansiedade, você anda olhando pra trás, você para em esquinas procurando. Você vasculha a vida.

 Não poder descansar o sentimento, viver em alerta de saudade e perda, como deve ser difícil pra cada família, pra cada pessoa que conheceu alguém desaparecido ou morto durante a Ditadura Militar no Brasil. E como é desolador pensar que há tantos que nem pensam nisso, que nunca refletiram como o silêncio criminoso sobre este período da nossa história afeta cada um de nós. Paira como mancha de possibilidade que os Direitos Humanos sejam, de novo e repetidamente, violados pelo Estado.

 Nos estágios do luto, nos momentos de grande sofrimento, há sim, o desejo de acobertamento. Não vamos falar sobre isso. Já passou. Vamos seguir em frente. Mas, no momento seguinte, se sabe, se sente, se percebe: não é possível. O tempo de não ver, de ficar calado, de lamber as feridas, esse já passou. E faz tempo. Uns 30 anos pra sermos honestos. É preciso abrir os porões, arejar os ambientes, colocar luz nos cantos da memória pra se poder seguir. Qualquer tentativa de manter o silêncio é criminosa. É insensível. É desumana.

É preciso abrir os documentos. Deixar vir à público. É preciso punir os culpados. É preciso permitir que cada pai, irmã, primo, vizinha, amigo e amiga desaparecidos e mortos tenham sua história desvelada e sua perda sentida no que é verdadeiramente.

 O Brasil dá um passo tímido nessa direção. Uma ação quase pífia: a criação da Comissão da Verdade que tem menos alcance do que o desejado. É pouco. Mas nem por isso deve ser ignorada ou abandonada. Cada pequeno avanço seja – senão celebrado – reconhecido pelo que é: um vazio a menos.

 E aí você me pergunta o que estas palavras estão fazendo num blog de receitas e cozinhas e comidinhas e conforto. É que há dias que não há barriga cheia que sacie uma fome outra de vida melhor, de respeito, de verdade, de transparência. Que não há cheiro de refogado que não seja a memória de um parente desaparecido. Que não há sabor na boca que não seja o amargo de saber que há tantos CRIMINOSOS não só soltos mas no alto escalão das nossas instituições a que chamamos democráticas por falta de nome melhor. Este texto está aqui porque quem aqui escreve, sente. E se envergonha. E se entristece. E peleja. Uma das lutas mais cotidianas e necessárias é não calar. É ocupar os espaços. É incomodar. Faço isso mal, eu sei. Mas reconheço e valorizo quem faz melhor, com mais intensidade e consciência.

 Precisamos da Comissão da Verdade. Precisamos de mais do que ela, é certo. Mas também precisamos dela. E ela precisa da sociedade civil atenta e fazendo pressão.

Pra saber mais, leia os posts da Niara no Pimenta Com Limão:

 Que Venha a Comissão Nacional da Verdade!

 Balanço da terceira blogagem coletiva pela abertura dos arquivos da ditadura militar (e daqui um mundo de outros textos travosos e verdadeiros)

E, claro, Não devemos esquecer: Brasil, Nunca Mais.

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Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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6 respostas para Um Sabor Amargo

  1. Li teu texto aos prantos, Lu. Sou sempre tão dura nas cobranças que não consigo escrever em prosa assim sobre essa luta que me é tão cara e séria e importante. Acho que é justamente para esquecer essa dor, essa sabor amargo que insiste em não sair do peito, da boca. Fizeste a melhor e mais simples leitura sobre o que é a aprovação dessa Comissão da Verdade: um vazio a menos. Obrigada!!! 😥

  2. Daniel Nascimento disse:

    Um texto extremamente sensível que cala muitas insensibilidades que ouvimos a respeito do tema. E o que é pior: não só à direita mas à esquerda também. Á esquerda por parte de gente que acha que, por ser manca, essa comissão nem deveria existir. Ou tudo ou nada. A estes, tua citação diz tudo: um vazio a menos. Lindo!

  3. Luciana disse:

    Tua luta é admirável. É uma pena que ela seja tua e não nossa. De todos. De muitos, pelo menos. Porque este sabor amargo não se disfarça, não se afasta, não se dilui. Persiste.

  4. Luciana disse:

    Daniel, acho que você tem toda razão. Não é nos conformarmos com o que temos, mas usar o que é possível para pressionar por mais, por tudo. Obrigada pelo “extremamente sensível”. Doeu um pouco escrever, por isso demorei, queria ter publicado no dia da blogagem coletiva.

  5. Luciana, parabéns pelo texto! Ele é amargo, como a saudade, e doce como a espera por justiça. Quando será que passaremos da fase de blindagem e olharemos, finalmente, para os familiares das vítimas? Enquanto esperamos o tempo passar, a impunidade repousa em paz. Sim, um sabor muito amargo! Abraço.

  6. Luciana disse:

    Talita, é isso: precisamos nos incomodar e incomodar os que podem fazer andar o processo de esclarecer nossa história e PUNIR os que devem ser punidos. Obrigada pelo comentário, um abraço

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