Dos Excessos ou Um e Outro

Para Lemuel, a quem devo uma janta…

Eu tenho duas receitas pra postar. Começou a confusão. Uma ou outra? Carne ou Peixe? E repetir salmão? Mas é outra forma de fazer. Então tá, mas e o filé que ficou tão gostosinho? E daí uma manhã quase se passa no entre. Entre um e outro, fazer o quê? Uma única coisa, recauchutar texto antigo e brincar cm as duas receitas.

Porque é de mim, eu considero muito difícil fazer escolhas. Este ou aquele? Não sei, sempre este e aquele me parecem igualmente desejáveis! Como escolher um sanduíche se tem com bacon, sem bacon, de filet, hambúrguer, hambúrguer de picanha, calabresa e por aí vai? Pizza, então, é o inferno, sempre são tantas combinações, todas tão apetitosas, aparentemente. Isso quando não tem aquelas combinações surreais que eu fico doidinha pra provar, tipo lombinho com mel. E roupas? Como é difícil entrar numa loja e não comprar todos os vestidos disponíveis. Compro roupas pra meses, não porque sou prevenida, mas porque levo várias e aí o gasto valeu por um tempão. Mas sofrimento grande, sofrimento mesmo, é em sebos e livrarias. Como escolher UM único livro? Eu não sei, nunca aprendi. Livros de todas as seções: viagem, suspense, clássicos da literatura mundial, livros de e para o trabalho, livros bobinhos, livros profundos… sei lá, tem letra impressa já me dá um comichão.

Escolher é difícil. Significa abdicar não só do que imediatamente se abandona, mas abrir mão de todas as consequências de se ter feito esta opção. Faço escolhas irrefletidamente, o que vestir, o que fazer pro almoço, onde jantar no sábado, porque se eu parasse pra refletir sobre tudo que não vestirei, nem cozinharei nem irei no sábado à noite, como lidar com todas estas perdas supostas? Como aguentar saber quantas pessoas não conheci, quantas palavras não disse, quantos livros não li? Meu Deus, quantos filhos não fiz! Então, sigo, meus desejos me guiando, eu ilusoriamente senhora de mim, sujeita a eles.

Fazer escolhas é difícil. O que escolhemos diz de quem somos, mas diz mais, diz quem poderemos ser. As escolhas nos definem, ao serem feitas e em suas consequências. Eu não acho fácil me dizer, quanto mais me fazer. Como lagarta/borboleta, como cobra trocando de pele, escolher às vezes dói. Porque viver às vezes dói. Dói mudar de cidade pra trabalhar, mesmo sabendo que é o certo. Dói colocar o filho de castigo, dar tchau na porta do ônibus, pagar conta, reprovar aluno, ficar sem crédito no celular. Dói ter prioridades. Dói viver. Mas dói mais não viver. Não fazer escolhas, ser escolhida ao invés de escolher. Dói mais se proteger, se esconder, negar. Já cantava meu poetinha: a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu. Ai de quem não rasga o coração… De todas as escolhas, só uma é fácil, previsível, constante: escolho amar, todo dia, o dia todo.

Então entre a carne e o peixe, fico com os dois, senão este post não sai nunca.

A carne foi livremente inspirada nessa experiência aqui e na receita: “desculpa, quebrei tua taça” da Raquel que muda de sentimentos. Então, você pensa: carne. E vai comprar o filé. Não encontra no primeiro lugar, mas não desiste. Limpa direitinho, corta na direção da fibra pedaços altos. Suspira. Suculenta, a carne responde. Vermelhinha, repararam? É a minha cor. Tempera com creme de cebola (essa maravilha da culinária contemporânea) e pimenta do reino com cominho. Torra gergelim branco, gergelim preto e farofa de castanha de caju. Deixa ali, esperando a carne. Faz o molho que, todo confuso, não fica em cima da carne, mas embaixo. O molho é assim: pinica a cebola bem miudinha, refoga com azeite e curry. Quando estiver molinha, molinha, coloca mostarda e creme de leite. Prova o sal. Deixa o refratário no forno morno (mas desligado). Aí parte pra carne. Azeite tão quente que você vê a fumacinha quase saindo da frigideira funda. E sela a carne. Um lado, outro. Crocante por fora, mugindo por dentro. Bem quente, encosta na farofa de gergelim com castanha e deixa deslizar no molho. Aí senta com a irmã (marido, amigo, saudades, esperanças, a companhia que preferir) e come.

O peixe. Outro salmão. Você procura postas altas, mas só encontra a peça inteira. Aí resolve inventar alguma coisa com aquela parte mais estreita que não seja só um penne ao molho de salmão. Porque você quer se mimar. E porque você está ouvindo o disco Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo (que ganhou do amigo querido) e suspirando muito ao pensar no baiano que quase foi seu. E, razão maior, porque você descobriu qual a palavra mais carinhosa da língua portuguesa e a lembrança faz sorrir pro tempo. Então primeiro você tira a pele, depois corta a parte estreita do salmão em tiras finas e mergulha em uma mistura de suco de laranja, sal e noz moscada. Em um refratário, azeite e pouco tempo no forno, apenas pra incorporar o sabor. E faz os molhinhos.

O primeiro, mostarda, mel e gergelim torrado (sim, do que sobrou da receita do filé). Outro: cebola, cream cheese, creme de parmesão. E, por fim, um pesto especial (especial é quando vou fazer uma receita e descubro que falta algum ingrediente essencial e aí improviso). No caso, meu pesto: vinho branco, manjericão, castanha de caju, azeite. Quando tirei o salmão do forno, fiquei espiando aquele azeite bem temperado e decidi: torradas. Não tinha o pão apropriado, mas e daí? Despejei o azeite gostosinho (e ainda com raspas de salmão que se desmancharam no calor) sobre as fatias de pão bola e coloquei no forno. Ficou bom. Não bonito, mas bom.

O filé teve acompanhamento pouco digno: coca-cola. Mas as risadas com a irmã compensaram. O salmão solicitou vinho branco. Delícia.

De fato, não escolher também é uma escolha. De excessos. Isso não me preocupa. Porque sempre me falta, não importa o quanto me sobre. Porque, em mim, o desejo. Que bom.

E penso como Dostoievski: “Realmente, se um dia de fato se descobrisse uma fórmula para todos os nossos desejos e caprichos – isto é, uma explicação do que é que eles dependem, por que leis se regem, como se desenvolvem, a que é que eles ambicionam num caso e noutro e por aí fora, isto é uma fórmula matemática exata – então, muito provavelmente, o homem deixaria imediatamente de sentir desejo. Pois quem aceitaria escolher por regras? Além disso, o ser humano seria imediatamente transformado numa peça de um órgão ou algo do género; o que é um homem sem desejos, sem liberdade de desejo e de escolha, senão uma peça num órgão?”

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Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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4 respostas para Dos Excessos ou Um e Outro

  1. Bárbara Lopes disse:

    Ou isso ou aquilo (meu preferido é usar anel ou pôr luva?). Também quero que você me deva um jantar.

  2. Anne disse:

    Adorei as duas receitas, adorei as fotos, quero muito tudo isso. Farei em breve o salmão, porque ando com desejo de comer salmão até me fartar. O salmão me deixou com vontade de dançar na varanda . . .
    Beijinhos

  3. Luciana disse:

    Bárbara, caso o jantar seja por aí (hipoteticamnete, na casa do Lemú) farei o salmão pra vocês já que minha habilidade manual não impede que a cozinha fique bem “azeitada” quando faço o filé. Se for aqui em casa, você pode escolher ou mesmo querer os dois.

    PS. Luva e anel pra mim, por favor, como você já deve ter notado…

  4. Luciana disse:

    Anne, que bom que gostou, o salmão ficou realmente bem saboroso; Aliás, salmão é fcinho de ficar delícia, ai ai.

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