Morangos, cigarros e um conto

Nenhuma melancia escancarada,
nenhuma pitanga madura, nenhuma manga molhada, nenhum morango sangrento. Um morango
mofado – e este gosto, senhor, sempre presente em minha boca?

Acordou com as gatas dando-lhe beijos de bom dia.

Claro que na verdade elas queriam que a serva humana as alimentasse e limpasse a caixa de areia – verdade que estava nojento –  antes de poderem passar para a modorra diurna, guardando as energias para o negrume da noite.

Negrume relativo, onde, na cidade, há o verdadeiro negror da noite, escura, só com a Lua minguante e as estrelas a clarear?

Depois de cumpridas as tarefas, as rainhas se acomodaram, cada uma em seu canto: A persa no alto da escada – ela gosta de olhar a tudo e a todos de cima. A mestiça, mais humilde, o tanto que uma felina de três quilos e meio pode ser humilde, na almofada.

E a humana foi fazer suas tarefas pessoais. Um sábado. Antes de meio dia. Precisava inventar um dia inteiro ou dois, porque amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o quê.

Ligou o computador, checou os e-mails. Nenhuma novidade, nada interessante. Quem mandaria e-mail interessante em um sábado de madrugada?

No twitter, nada de novo. Apenas os trechos de sempre, de Caio Fernando de Abreu, Clarice, blablablá, wiskas sachê…

Tinha birra de Caio, sem conhecer. Clarice era outra história, já era um caso antigo, a modinha recente não o afetara.

Uma caixa de morangos na geladeira, comprados de impulso na sexta-feira, antes de ir para casa, junto com o vinho. Esperança de ter com quem compartilhar? Devia ter comprado champagne, então, e ligado para aquele caso antigo. Mas esquecera, ele estava com outra pessoa. Arrumado um caso novo, então… Preguiça.

Abriu a caixa e lavou os morangos em água corrente, sem tirar os cabinhos. Sua mãe sempre dizia que eles duravam menos sem os cabinhos, e agora, aos cinco depois dos trinta (mais ou menos a metade da vida?) questionava menos a sabedoria materna quanto aos fatos práticos da vida. Descobria em si, cada dia mais, na organização da cozinha, nas manias, muito da mãe. Claro que lutava contra – rebelião constante, meio inócua, na casa de solteira – e deixava a louça se acumular até o caos, a cama sem arrumar, a casa sem varrer, até que o ímpeto de organizar limpar lavar passar varrer aspirar cozinhar viesse. Nesses momentos, era uma tormenta. Lembrou-se como ele ficava, quando surgiam esses ímpetos.

Decidiu comer logo os morangos, de café da manhã.

E enquanto comia, decidiu ler o tal Caio Fernando de Abreu, de que tanto falavam por aí. Com uma certa antipatia, achou o pdf e baixou, esperando algo metido a alternativo, dessas gurias de faculdade de filosofia que desejara um dia ser, mas não conseguira, porque afinal, era apenas uma filha de classe média comum. Média. Branca, heterossexual, católica. Queria ser outra. Queria mesmo?

Comeu os morangos, ouvindo Adele e começou a ler os tais contos… Morangos mofados, começou com ele, afinal, comia morangos frescos, com gosto de inseticidas pesticidas e implementos agrícolas. Onde é que ia achar as porras dos morangos orgânicos nessa cidade medíocre, colada a uma metrópole provinciana, de um estado ainda mais provinciano?

E no meio da leitura da introdução, se descobriu fisgada. Pulou logo para o conto dos morangos, querendo saber se era tudo aquilo.

E no meio do conto, decidiu tomar um drink. Não o vinho, era cedo… Mas um wisky, sem gelo. E mudou de Adele para Beatles. Meio óbvia, ela era. Sempre soubera. Decidiu colocar gelo. E engoliu com prazer. Também ela se reconheceu em cada frase, em cada linha.

E o final do conto, com uma reviravolta, uma mudança de perspectiva sobre o que pensava do autor, da modinha, do conto que nunca lera, e sobre cada coisa que jamais pensara.

Acendeu um cigarro, esse maldito que fora o único que restara dela nele, pelo que sabia. E pensou em parar de fumar. E em plantar morangos.

…será possível plantar morangos aqui? Ou
se não aqui, procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos.
Achava que sim.
Que sim.
Sim.

Suculentos, carnudos, eróticos...

Um textinho meio bizarro para o feministas na Cozinha.

Mas experimentações culinárias são bem vindas, então, experimentações literárias também são aceitas. Aqui é um lugar onde acolhemos. Compartilhamos, repartimos.

Um lugar onde cabe de tudo.

Inclusive a receita mais básica, de uma sobremesa fresca:

Morangos frescos

Uma caixa de chantilly

Sabor delicioso, aparência sofisticada.

E um certo erotismo, porque morangos com chantilly lembra sobremesa de romance, lembra lençóis de cetim e luz de velas.

Desejo morangos suculentos e frescos para todas!

Bom final de semana!

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Uma resposta para Morangos, cigarros e um conto

  1. Anne disse:

    Renata, adorei! Morango é minha fruta favorita desde sempre.
    Caio Fernando Abreu eu gosto, mas tenho uma certa implicância. Não sei dizer exatamente do quê. Desconfio que a sutileza dele me deixa um pouco confusa. Sei lá, também. Li muito pouco dele. Quem sabe volto no pdf que baixei há alguns anos e dou uma nova chance?
    Beijinhos

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