Só é Bom Se…

Pergunte pr’o seu Orixá
O amor só é bom se doer

O salmão insiste em morrer. Tá, ele nem sabe, mas quando chega a hora da reprodução, ele aceita o flerte da morte. Sempre considerei isso belo. A decisão firme que faz com que ele nade, resoluto, pra sua finitude. Eu só gosto assim: me jogar no abismo de olho aberto, mergulhar no que é profundo, aceitar a lâmina fria de um olhar, vagar no deserto. Eu escolho o épico. Eu escolho a jornada. Eu quero é isso mesmo, nadar em direção ao doce que envenena. Se não houvesse mais motivos, só por esse comeria salmão sempre que pudesse. Mas há. Salmão tem aquela consistência indescritível entre o firme, o macio e o “huuummm” com olhos fechados. Salmão tem aquela cor de uma boca que foi firme, profunda e demoradamente beijada. Salmão tem sabor de…prazer.

Claro que, se eu tivesse juízo, nem pensava em postar receita de salmão depois desta maravilhosa indicação da Bárbara Lopes (que demora um tantinho, mas que delícia, já provei e dou testemunho) ou desta provocação feito receita da Anne (quem não ama pratos gratinados?). Mas eu paquero com os riscos e me divirto no perigo. Ou, pelo menos, meu coração pensa que sim. Sigamos.

A receita inicia-se com duas amigas queridas e um rapa em três geladeiras pra juntar cervejas, resultado: uma bohemia, duas antarcticas, uma malzbier e seis stellas. Aí você nota que o salmão ainda está descongelando e resolve fazer algum tipo de tira-gosto, mas não tem quase nada nos armários, então investe na linguiça. Corta em pedacinhos, pouco óleo, quando está quase pronta, cebola, shoyu e mel. Muito papo. Dos bons. Muito riso, dos de sempre, sempre novos.

Aí é quase a hora do salmão. Nele, coloca-se sal e limão. Deixa que ele brinque com a acidez e vai descascar batata – com todo respeito.  Corta em rodelas e coloca pra cozinhar no leite. Quando estão quase no ponto, em um refratário, deixa a mão solta pro azeite, coloca as batatas e tempera com páprica picante e pimenta do reino. Depois, fatias de tomate e folhas de manjericão. Engrossa o leite que restou (eu agora uso creme de cebola sempre, no lugar da maisena) e completa com requeijão. Derrama em cima das batatas e coloca no forno.

Enfim, ele. O cara. O da morte em vermelha tentativa de encontro. Prepara uma mistura de shoyu e mel – que estavam mesmo na bancada desde a linguiça, acrescenta mostarda, azeite… e verte sobre as postas (bonito isso de verter, me lembra: verteu lágrimas de sangue, mas divago). Coloca no forno que já está bem quente e deixa lá por cerca de 15 a 20 minutos. No meio do caminho, dá uma regadinha pra pegar mais o gosto. Depois do tempo previsto, separa as postas, reduz o molho encorpando com mais mostarda ou mais mel (dependendo do paladar, claro). 

Se ainda tiver saco (eu tive) faz arroz. Corre o risco de você ver, como eu vi, a amiga, depois de comer e se lambuzar de salmão e batata, colocar só arroz e molho no prato e ainda soltar um gemido de satisfação. Acontece.

PS. Ainda vou fazer, aguardem, o tal chocolate temperado com noz moscada, pimenta e se que lá mais. É que foi uma semana corrida…

PS2. A farra do salmão correu ao som de Casuarina. Se você não gosta de samba, eita, ruim da cabeça, doente do pé?

 

 

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Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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21 respostas para Só é Bom Se…

  1. Nossa, Lu, como você escreve lindo! Se você tivesse feito isopor assado ao molho de despertador quebrado, a gente ainda ia ler o seu post e achar tudo uma delícia! Quer dizer, você escreve um texto lindo, ensina a fazer um, dois, três pratos deliciosos (entrada, acompanhamento e prato principal) e ainda dá essa contribuição generosa pra aumentar o meu limitadinho repertório de ingredientes, como essa dica incrível da sopa de cebola no lugar do amido de milho. Ô mulher porreta!

  2. Luciana disse:

    Cecilia, essa do creme de cebola fez minha vida mais feliz. Só não so se der hoque de sabores – eu amo cebola, ;-). E isopor assado ia ficar bom com aquelas coisas exóticas que a Barbie Lopes costuma usar…

  3. Lica disse:

    faltou acrescentar que tudo isso foi regado a um papo sobre os homens mais bonitos do mundo… deixa tudo mais… hummm… gostoso.

  4. Bárbara Lopes disse:

    Não sei se o texto me deixou com mais fome, mais sede, ou mais saudade de bater papo com a cozinheira.
    (Adorei o comentário da Cecilia)

  5. Anne disse:

    Só digo uma coisa: queria muito estar aí junto!!! Adoro salmão, adoro bate papo, adoro shoyu e adoro mel.
    Tive saudade do que não vivi. De verdade, parecia que estava sentada papeando com você.
    Amo muito.

  6. Luciana disse:

    Lica, eu não mencionei isso, vai que alguém põe olho grande no meu Mark?

  7. Luciana disse:

    Bárbara, trilha sonora…http://www.youtube.com/watch?v=vwxGHP-Ff1s

    O papo tá na ponta da língua…

  8. Luciana disse:

    Anne, a gente pode ter saudade pra frente, né? A gente já sente hoje o que vai viver depois. Também quero papear com você, com shoyu e mel…

  9. É receita ou poesia, poesia ou receita? Ambos!!! Muito lindo, muito apetitoso! Abraço.

  10. Luciana disse:

    Brigadinha, Talita, partilhar com vocês deixa tudo mais gostoso…

  11. Renata disse:

    Saudades de papear com a cozinheira.
    Saudades de beber com a cozinheira.
    Saudades da cozinheira.
    Saudades.

  12. Tenho certeza de que a Babi viria com um prato uau!

  13. Poxa, vai estar todo mundo aqui no começo de setembro, bem que a gente podia cozinhar juntas, né? Minha casa está às ordens!

  14. regina soares disse:

    Concordando com todo mundo aí encima e os que estão por vir… Já notou que quem gosta de fazer amor também gosta de fazer comida, dar de comer, ser comida? Tá tudo aí…
    Receita copiada, testarei logo, espero encontrar a companhia que mereça o momento.
    Nota: na próxima, tente marinar o salmon no suco de laranja, deliciosa surpresa!!! Bjos!!!

  15. Luciana disse:

    Regina, gosto de (ser) comida (ai ai ai minha reputação). Vou marinar o salmão em suco de laranja sim, adoro. Esse fim de semana incrementei e fiz a crosta do samão crocante com gergelim branco e preto e farofa de castanha de caju,. Ficou bom.

  16. Luciana disse:

    Renata, Renata, Renata,

    tomara que chegue logo o tempo das gargalhadas conjuntas com pé na estrada.

  17. Barbara Manoela disse:

    Não vejo a hora de comprar meu fogão novo pra experimentar essa receita de salmão!
    e Casuarina é puro amor!
    bjo!

  18. Luciana disse:

    Affe, Casuarina faz feliz, né? E viva o fogão novo da babi!

  19. Keila disse:

    Aprendi assim: Salmão gratinado com azeite, molho de mostarda e alcaparra, tudo no forno.
    Simples e gostoso (de quando comia carne).
    Mas pra peixe há momentos de abrir mão.
    Direi que não é somente pelo sabor, mas por ler-me nele, entregue sem medo, reservas, intensa.
    Será assim?

  20. Pingback: Dos Excessos ou Um e Outro | Feministas na Cozinha

  21. Luciana disse:

    Keila, que lindo saber-se assim e que receita tentadora. Vou experimentar.

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