Chupando Drops de Anis

(texto adaptado daqui)

Como você aprendeu a amar? Se a gente parte do princípio de que no ser humano aspectos como pensamento, sentimento, linguagem não são naturalmente dados mas construídos socialmente, reconhece-se – também e necessariamente –  que a forma como amamos, as palavras que escolhemos pra falar do nosso sentimento, os gestos e reações que temos à presença ou ausência do objeto de amor, tudo é resultante de nossa interação com eventos e pessoas específicos que foram operando como mediadores da formação de nossa forma de amar. Então, como você aprendeu a amar? De onde vem seu dicionário particular? O meu vem, em grande parte, de filmes. Com minha família, especialmente meus pais, aprendi a viver junto com paixão. Mas o apaixonar-me eu aprendi mesmo foi entre cenas, intervalos, imagens e diálogos. Amar pra mim é morte, delírio, loucura, entrega, abismo. De onde todas essas palavras? Filmes, claro. Aprendi a amar delirantemente com O Morro dos Ventos Uivantes. Aprendi a amar com sacrifício e morte com A Dama das Camélias. Aprendi a resistir e a entregar-me como Debora Kerr em Tarde Demais Para Esquecer. Aprendi sobre traição, estilo, abandono, mentiras, sobre sedução e ternura. Aprendi sobre ser mulher. Sobre ser eu. Sobre como eu devo ser pra amar como eu sou. Aprendi, também, sobre deixar, sobre seguir, sobre matar. Aprendi nos filmes os gestos, a trilha sonora, o cenário e o roteiro de uma estória de amor. Aprendi sobre o doce e sobre o amargo, sobre partidas e reencontros. Aprendi como não dar a mínima com Gable e aprendi com Scarlet que amanhã é outro dia, o que quer que isso signifique. Aprendi a não deixar que o amor seja maior que a honra, a não esquecer de dizer te amo, a não fugir do raio, aprendi isso nas paisagens da Sicília sem lá ter ido, apenas com a família Corleone como guia. Aprendi como usar o leque imaginário com que me abano sempre que o desejo parece me sufocar. Aprendi a ser frágil. A ser meiga. Aprendi a ser Calamity Jane, a ser gata em teto de zinco quente, a ser indomável Katherine.

O cinema moldou o meu sentir. Os meus sentidos. Há tudo lá, naquela tela imensa, maior que o mundo, menor que cada um que a fita. O cinema é bom quando convida nossos sentidos pelo que oferece, pelo que tenta, pelo que nos deixa consciente do que está a mostrar. E é melhor quando justamente dá aos sentidos a noção de ausência, a promessa de devir. O melhor filme é aquele que quase nos faz esquecer que temos um corpo e aí, zás, como um tapete que nos puxam, lança-nos de volta a ele, corpo, em sua fome.

Foi o cinema – e continua sendo tantas vezes – que me deu o gabarito do sentir. É por todos os sentidos que ele alcança e por todo o sentido que ele me permite que eu lhe dê, que eu amo e vivo o cinema. Os meus temas são os de sempre: amor, morte, solidão, liberdade. As minhas formas de viver são estilos: suspense (será, será, será que ele é ele? será que tudo vai dar certo? será que não fiz caca?), uma grande necessidade de dramas, um anseio por momentos épicos e, normalmente, um tombo enorme na comédia porque sou mesmo desastrada e exagerada. Essa é a verdade essencial sobre mim (trilha sonora de revelação, por favor): eu exagero. Então, embora admire a elegância de Bergman, minha alma barraqueira é uma cruza de Fellini com Almodóvar. E assim caminha a humanidade (um dos meus favoritos de sempre) ou, pelo menos, assim caminha a minha humanidade, talvez de trás pra frente, perdida no deleite do excesso. Do que sobra. Do que tenta nossa boca. Suculenta maçã se oferece à Branca de Neve e, mesmo em desenhos, nossos dentes coçam por mordê-la. Salivamos em Festas de Babettes com tantos nomes que nos fazem cócegas às papilas: Tempero da Vida, Como Água para Chocolate (ou, mais diretamente, Chocolate, com Binoche e Johnny Depp), La Grande Bouffe com Mastroianni, Comer-beber-viver (não confundir com o enjoativo Comer-rezar-amar). Filmes que mostram, que revelam, que desvelam iguarias e insinuam sobores. Mas o paladar também se ouriça em vazios. Em fome.  Como quando Vivien Leigh, uma Scarlett humilhada e faminta, agarra e rói um nabo velho. Ou quando Gene Tierney rasteja por um saco de legumes em uma das únicas três cenas em que aparece, mas com que intensidade deseja comer! Ou ainda, um paladar que se acende não diante de comida, mas diante do outro, como Antonio Banderas saliva por Victoria Abril em Ata-me. Salivamos juntos. Salivemos.

Listinha Rápida de Filmes com Sabor…

  1. Festa de Babette
  2. Tempero da Vida
  3. Chocolate
  4. Como água para chocolate
  5. Ratattouille
  6. Sem Reservas
  7. Comer, beber, viver
  8. Tomates Verdes Fritos
  9. Estômago
  10. O Jantar
  11. Vatel
  12. O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante
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Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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Uma resposta para Chupando Drops de Anis

  1. Bárbara Lopes disse:

    Você viu Soul Kitchen? É um filme alemão, que tem uma pegada meio O Cozinheiro, o Ladrão…

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