Anti-receita

Uma receita é aquele negócio assim: pegue isso, faça aquilo. Às vezes, a gente é democrático e “deixa” o leitor abrir mão de um ingrediente ou trocar alguma coisa. Mas são mudanças ali na superfície. Ou, do contrário, não seria mais a mesma receita. Mas e quando tudo pode mudar? Ainda é receita? Ainda tem identidade?

Ceviche é um desses casos. Daqueles que existem mais receitas que pessoas para preparar. Que nunca ficam iguais ao anterior. Que exigem seu toque pessoal, que mudam com seu humor, que às vezes são quase irreconhecíveis. E ainda assim não deixam de ser ceviche.

O meu esta semana foi assim: dois filés (uns 300 gramas) de linguado cortados em quadradinhos vão para a tigela de cerâmica; são cobertos com um pouco de sal e o suco de quatro limões. Começam a descansar enquanto meia cebola roxa é cortada em rodelinhas bem finas. Além da cebola, o peixe é salpicado com um pouco de pimenta calabresa e gengibre ralado. Depois de meia hora na geladeira, um punhado de coentro e cebolinha picados e um fio de azeite. Comemos com pão.

  • Você pode trocar o linguado por outro peixe (de preferência de carne macia, como pescada).
  • Você pode trocar peixe por camarão (só dar uma leve aferventada antes).
  • Você pode combinar os limões com laranja, limão siciliano ou outra fruta da família.
  • Você pode trocar o sal por um fiozinho de shoyu.
  • Você pode dispensar o gengibre e trocar a pimenta calabresa por alguma pimenta fresca bem picadinha.
  • Você pode trocar a tigela de cerâmica por tacinhas individuais de sorvete ou de dry martini.
  • Você pode (e deve) ajustar o tempo de marinada de acordo com o peixe, com seu gosto e com sua agenda.
  • Você pode colocar uma fruta – como uma maçã verde picada – para dialogar com a acidez e o salgado.
  • Você pode cortar a cebola em cubinhos ao invés de rodelas e colocar tomates em cubinhos também, se inspirando na receita da Cláudia.
  • Você pode usar só coentro, só cebolinha, salsinha ou experimentar com outra erva.
  • Você pode trocar o pão por fatias de abacate, por salgadinhos de milho tipo Doritos, por outro tipo de pão ou por nada mesmo (principalmente se for só a entrada).
  • Você pode escolher grafar ceviche, cebiche, seviche…

Para acompanhar o prato e as conversas depois da comida, fomos de Gatão, um vinho verde leve (inclusive no bolso) e ácido o bastante pra acompanhar o ceviche. Mas, obviamente, você pode mudar isso também.

PS. Como na língua também nem sempre seguimos receitas, o título do post está fora da nova norma, que pedia antirreceita.

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7 respostas para Anti-receita

  1. Cecilia disse:

    Um dia eu tenho que encarar o meu problema com peixe cru. Deixar de ser a chata que nunca quer ir ao restaurante japonês. As suas receitas (e antirreceitas) parecem tão simpáticas que uma hora dessas eu venço minha resistência.
    Vinho verde é bom. =D

  2. Iara disse:

    Cecilia,

    Eu não encaro peixe cru, mas adoro ceviche. É outra coisa, viu? Muito diferente mesmo, porque o limão meio que cose o peixe, altera a textura dele e tal.

    Adorei, Babi! =D

  3. Rosa Lopes disse:

    E a pessoa aqui demorou um pouquinho pra entender que ceviche fosse a receita, vivo ao wikipédia, certa que tinha encontrado o nome da prática de mudar tudo na prática da receita de acordo com seu paladar, ficou tão feliz kkkk, mas caindo a ficha, também ficou feliz de saber que o almoço dela de ontem tem nome e nome chique com origem e tudo.
    Bj

  4. Bárbara Lopes disse:

    Cecília, é como a Iara disse, o peixe cozinha no limão, muda a cor, a textura (ou, em linguagem nerd, a acidez denatura as proteínas do peixe, como o calor faria).

    Mas sabe que eu só fui aprender a amar peixe cru depois de velha. Então sempre há tempo 🙂

  5. Bárbara Lopes disse:

    Verdade, Rosa, tinha que ter um nome pras adaptações que a gente faz. Eu invento nomes pra alguns pratos, digo que é “à minha moda”, etc.

    beijo!

  6. Eu já comentei no FB e repito aqui: está se insinuando uma revolução e as fileiras da boa cozinha nem se aperceberam. Isso é que dá um blog de receita com um monte de gente fora dos modelos 😛

    Gostei muito, especialmente das variações insinuadas mais do que sugeridas.

  7. thayz athayde disse:

    Babi, eu amei as dicas! Até favoritei esse post, quando for cozinhar vou olhar tudinho! ^^

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