Deixa a Tanga Voar*

Eu não ando muito bem. Maio não tem sido clemente, o tempo e o bolso bem menores que as demandas. A angústia que só sai do sótão muito esporadicamente resolveu se instalar na sala e uma solidão danada no corpo faz tudo parecer um tantinho mais cinza. O sem sabor chegou? Deixo entrar, vivo, (me) acolho. E deu. Levanta, sacode a poeira e bola pro mato que o jogo é de campeonato. Porque isso de viver a tristeza eu faço, mas curtir a tristeza não é da minha índole. Saquei minha oração do AA (bláblá aceitar, coragem blablá mudar, sabedoria pra distinguir e tal) e fui direitinho pro que posso mudar. Por exemplo: a foto do meu avatar no twitter. Mudei e coloquei meu maior sorriso. Escolhi escutar Sivuca, porque ele é criativo, inovador, tem um sorriso fofo e, ai!, como ele curte o que faz. Sempre é um prazer vê-lo e ouvi-lo. Convidei a alegria pra tirar uma parte (quem não é sertaneja pergunta que eu explico), encoxei a bichinha com jeito e deixei o ritmo tomar conta. Fui pra varanda com minhas cervejinhas e o tira-gosto e deixei o vento cantar os amores do tempo pra mim.

Então vamos falar do tira-gosto. Tira-gosto é uma arte pouco exercitada…tem que ser comida boa, atraente, mas que não fique pesando no bucho nem ocupe o canto da cerveja. Tem que ser fácil de comer, não pode precisar de muitos artefatos. Se demandar mais que um garfo ou palitinho já é suspeito.Tira-gosto tem que deixar uma vontade na boca, sabe? E, mais importante, tira-gosto tem que fazer a gente esquecer se tem hífen ou não…Os meus de ontem: queijo coalho e linguiça. Assim:

Pega a linguiça tipo aperitivo (aquela rechonchuda) e coloca numa forma forrada com papel alumínio, derrama azeite com gosto, coloca no forno quente (o meu é sempre quente já que o mínimo dele é 210 graus)…quando estiverem assadas (cuidado pra não ressecar), tira do forno e joga mel em cima. Fica bom, viu. Fatia e espeta o palito.

O queijo? Corta em cubinhos. No liquidificador (que eu não tenho processador) bate cheiro verde, azeite e sal. Depois, mistura com farofa de castanha ou então bate nozes (com nozes fica melhor, mas aqui no Nordeste fica mais caro). Passe o queijo na gororobinha que você fez e frite no azeite. Deixe ficar douradinho mas cuidado pra não derreter. Rebola cheiro verde e/ou cebolinha bem picada em cima, espeta o palito e pronto (se não estou enganada esse modo de fazer é um casamento entre uma receita da net e o jeito da minha mamys).

Se sobrar queijo e mel, depois do almoço de domingo, experimenta colocar o queijo na chapa quente, dourar dos dois lados e regar com mel. Ai, delícia.

Depois de várias longsnecks com riso no rosto, computador no colo, música boa no corpo e esses quitutes fico mais pronta pro gargalhar, digo, pro suceder dos dias. Tocou muito Sivuca, mas no frigir dos ovos eu terminei bradando mesmo isso (quem quiser pode pular, balançar os braços e dar umas rodadinhas) :

Eu gosto de andar pela rua
bater papo, de lua e de amigo engraçado
Eu gosto do estilo do Zorro
o visual lá do morro e de abraço apertado
Eu gosto mais de bicho com asa

(…)Eu gosto de trem fora do trilho
de andar com meu filho e da cor do marfim
Tem gente, muita gente que eu gosto
que eu quase aposto que não gosta de mim
(…)Eu gosto de artista circense
de artista que pense e de artista voraz
Eu gosto de olhar pra frente
de amar pra sempre o que fica pra trás
(…)Eu gosto é de beijo na boca
de cantora bem rouca e de morar no Brasil
Eu gosto assim do canto do povo
(…) Eu gosto de varar madrugada
de quem conta piada e não consegue entender
Eu gosto da risada gargalhada
da beleza recriada pra que eu possa rever
(…)Eu gosto é de ver coisa rara
a verdade na cara é do que gosto mais
Eu gosto porque assim vale a pena
a nossa vida é pequena e tá guardada em cristais
(…)Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar…

*Deixa a Tanga Voar em homenagem ao sempre querido Luiz Gonzaga. Ouvi Sivuca pra melhorar o dia, mas bem podia ter sido a sanfona choradeira de Gonzagão.

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Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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2 respostas para Deixa a Tanga Voar*

  1. Larissa disse:

    Tô aqui molinha de ler seu texto, menina! Mal te pergunte, vc é nordestina? de onde? Seu jeitinho de escrever e seu palavreado me lembra muito o da Katita (do ex Rainhas do Lar e hoje, do Piteu)…. acho que, apesar de mineira, tenho a alma meio nordestina, ou meio baiana, enfim, assim, muito da “solar”… Um bjo!

  2. Pingback: Esquenta | Feministas na Cozinha

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