Marmiteira

Em inglês, o lobo é a metáfora da fome. “Como Cozinhar um Lobo”, escrito pela autora norte-americana MFK Fischer, ensina a destrinchar seu orçamento para espantar a fera da fome da soleira da porta. O livro é de 1942, e em pleno entre guerras, Mary Frances dá dicas de como não jogar nada fora e fazer uma cozinha de mínimo investimento sem perder a elegância e a dignidade. Só na escassez, física ou espiritual, o valor real das coisas aparece.

Hoje talvez a gente viva em tempos de abundância excessiva; é muito fácil comprar tudo (sobretudo comprar tudo pronto ou quase pronto). A emancipação da mulher e o mergulho no mercado de trabalho foram bem facilitados pela indústria alimentícia, mas a que preço? Eu desconfio muito do que a indústria alimentícia tenta me vender, dizendo que é bom para mim e ainda por cima não me dá trabalho. Fazer comida do zero, plantar uns temperinhos e, que seja por birra e não por necessidade, usar cada talinho em vez de jogar fora podem nos fazer mais criativas. E à mesa, mais gostosa, mais farta, mais cheia de pequenas luxúrias. E sem ter que se matar na cozinha como uma serviçal, acredite em mim.

Ontem de manhã fui pegar alguma coisa na geladeira para o café-da-manhã e topei com restos mortais de dois jantares distintos: macarrão parafuso integral cozido e um mix de brócolis, couve-flor, acelga e cenoura no vapor. Salteei alho picado, colhi umas folhinhas de orégano frescas na floreira, juntei tudo, mais umas pitadas de pimenta do reino moída na hora, acomodei um tupperware e voilà: almoço para vir comigo. Nada de deixar a comida na geladeira, onde eu sei que ninguém ia se animar de cozinhar alguma coisa com um mínimo de graça.

Parafuso, legumes e vontade de preguiçar no sol

Aí veio a vontade de fazer direito. Supermercado, legumes, e encaixa tudo nas ecobags, se equilibra na bicicleta e vai! Ficou assim:

Combo!

Confesso que eu fiz três pratos só para estrear essa marmiteira

No prato do dia: legumes assados no azeite, couscous marroquinho com abobrinhas e salada de tomate. Não vale reclamar que não tem tempo: a brincadeira demorou um pré-preparo ridículo na noite anterior e 20 minutinhos de manhã, bem menos do que eu ia gastar na hora do almoço indo para algum restaurante, fazendo prato ou pedindo, pagando na fila e voltando.

Os legumes são tão fáceis que nem tem receita: piquei grosseiramente em cubos pimentão vermelho, amarelo e cebola roxa. Espalhei duas cabeças de alho desmembradas com casca e tudo. Joguei duas endívias por cima, reguei com uma xícara de azeite e coloquei no forno bem quente, senão não carameliza e não puxa a doçura natural dos vegetais. Cerca de uma hora em forno alto e rende uma assadeira média de legumes, que aguentam bem na geladeira e acompanham quase tudo: carnes, massas, arroz. Sal, eu prefiro por na hora e já variar os temperos da porção: quebra umas nozes ou amêndoas torradas por cima, pica salsinha ou outras ervas, joga um aceto balsâmico. É um acompanhamento que você não vai se arrepender de ter na geladeira de vez em quando.

O couscous também é tão fácil que não merece receita: hidrata meia xícara em meia xícara de água fervente com uma pitaca de sal. Refogue uma cebola pequenina (ou meia para paladares mais sensíveis) e meia abobrinha em cubinhos em uma colher de sobremesa de manteiga. Misture o couscous e tempere à gosto. Eu lasquei umas pitadas de pimenta branca moída na hora e um pouquinho de páprica doce.

E a salada? Tomate e cebola roxa em fatias, um pedacinho minúsculo de queijo de cabra esfarelado por cima, mais um punhado de folhas de orégano frescas. Finalize com uma espremidela de limão siciliano e um fio de azeite e não precisa mais nada para ser feliz.

Frescurinhas: trabalhamos

Eu fiz tudo rapidinho antes de vir para o trabalho, e montei minha marmita numa trouxinha que veio amarrada no bagageiro da bicicleta. Um tanto quando boia-fria. Barato (mesmo com endívia e queijo de cabra!), levinho, saudável e prático. Os talheres e jogo americano eu já deixo por aqui, no trabalho.

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Sobre Verônica Mambrini

Cama, mesa, banho, foto, tela e texto.
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11 respostas para Marmiteira

  1. annerodrigues disse:

    Eu adoro legumes assados, sempre faço aqui em casa. Agora, tenho que dizer que fiquei com vergonha da marmita, dificilmente eu faço. Na verdade a preguiça nem vem de fazer a comida, mas de limpar a cozinha depois. Vergonha.
    Beijinhos

  2. Iara disse:

    Que marmita linda! Olha, é couscous não é um troço dos mais baratos, mas eu também adoro. Sempre que sobra caldo de alguma coisa, vira couscous aqui em casa. Lógico que daria pra virar pirão também, mas o pirão ainda exige um refogado e mexer pra não empelotar, né? Couscous, nem isso.

  3. Invejinha aqui da sua inventividade e disposição.

  4. Lis Comunello disse:

    Delícia de post, Vevê!
    Adoro abrir a geladeira e botar a criatividade pra funcionar com o que está pela metade lá dentro. Sexta à noite, por exemplo: brócolis, pimentão vermelho, pimentão amarelo, cebola, um punhadinho de amendoim e shoyo viraram um jantar delicinha e super rápido. E ainda vou ter meus vasinhos com temperinhos. =D

  5. Brigada da leitura, meninas! Lis, tudibão a combinação com shoyu e amendoins, hein? Vou tentar!
    Iara, se for família grande, realmente é meio caro o couscous, mas pensa que meu prato tinha três colheres de sopa ou menos… com legumes picadinhos junto, rende muito.
    Eu curto muito fazer comida para mim sozinha, o que eu sei que é meio raro. De repente animo mais pessoas por aqui… porque é um esforço que vale tanto a pena!

  6. Sara Joker disse:

    Eu vou fazer os legumes assados… vão ficar delícia!

  7. Sara Joker disse:

    eu ainda prefiro e muito cozinhar pra muita gente, coisas que aprendi com quem me ensinou a cozinhar: meu padrasto – ele fala que bom mesmo é fazer um panelão de comida e no final do almoço ver o fundo desse panelão! Ele adorava cozinhar pra gente qdo éramos crianças. Mamãe trabalhava de dia e estudava de noite e ele cuidava da gente, fazia comida gostosa quando chegava do trabalho… era tão bom!
    Momento nostalgia! Efeito de falar de comida comigo!

  8. Anne Cristine Rodrigues disse:

    Eu fiz legumes assados ontem. Ficaram uma delícia, usei para temperar, além do azeite, um pouco de vinagre de laranja com mel!
    Obrigada pela dica.

  9. Geovana disse:

    Ah eu adoro, prefiro mil vezes trazer meu almoço do que comer em restaurantes. E como a família é grande, 5 pessoas, eu preparo comida suficiente para o jantar e para o almoço de todos no dia seguinte, e todo mundo sai de casa com uma linda marmitinha… hehe Fiquei super interessada nesses temperos diferentes que vc usou, eu quase não uso ervas, tempero a comida com cebola, cebolinha e alho, vou começar a experimentar, parace mto interessante. 😀

  10. Vinagre de laranja, onde compra isso? Parece uma delícia!

  11. Goeovana, vale a pena experimentar outros temperos sim! Muda totalmente a cara da comida. Vai comprando devagarzinho, vendo o que você gosta, experimentando como usar. Eu me inspiro bastante em receitas de outras culinárias, dá para ter uma ideia do que combina com o que só de ler. E conta aqui depois!

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