Menos Só ou Na Cozinha com Baleiro

Tudo começa assim: eu estou cansada, com sono, gelada por dentro. É sexta, mas estou fria, fria, nem a varanda, nem o Baile do Simonal conseguem desfazer o nó que liga meu vazio ao nada. Daí, é preciso entender, eu preciso de algo morno. Fecho os olhos e vejo direitinho: fettuccine com aquele molho vermelhinho por cima e umas folhinhas de manjericão e huummm, quase sinto o cheiro, azeite, claro, azeite é vida, e lascas de queijo parmesão. Preparando tudo no pensamento vou ao mercantil providenciar coisitas necessárias. Procuro primeiro os tomates descascados (sim, preguiça é meu nome do meio, depois vem pressa e praticidade). Não tem. Claro que não tem. Ok, tomates maduros e já pego o manjericão, tudo no mesmo setor…não tem. Não tem manjericão, não tem tomate maduro. Mas tem filho em casa com fome, não dá pra passar em outro lugar. Reestabeleço prioridades, penso num molho com salmão e creme de leite mas o salmão é congelado, desisto. Espio daqui, espio dali: já sei: filé! Claro que não tem. Mas compro patinho e segue a vida.

Vou dizer pra vocês: eu gosto da minha casa. E, quase sempre, gosto do município em que ela está. Gosto das ruas limpas, do trânsito bom, das praças bonitas e aconchegantes, das pessoas gentis. Mas não gosto de ser mulher aqui. Ou melhor, a mulher que sou às vezes não cabe aqui. Sempre que saio pra ver futebol sozinha é um deusnosacuda: eu digo – uma cerveja, por favor. E aí tenho que escutar: trago agora ou só quando os outros chegarem? Que outros, cara pálida? Sou eu e meu amor ao Mengo e só. Bar? Não tem. Vida noturna? Restaurante cheio de famílias é vida noturna? Eu-acho-que-não. E mercantil com temperos, peixe fresco, tomates sem pele, ervas frescas? Não tem. É difícil viver com poucas opções (e eu nem vou falar da solidão do corpo dessa vez). Depois do mimimi, volto ao jantar.

Então: clima. Não vai dar pro de sempre, o oco aqui no peito não faz ziriguidum. Escolho Zeca Baleiro, “você me faz parecer menos só, menos sozinho, você me faz parecer menos pó”. Pra cozinha…

…peguei a carne, lamentei não ser filé, que de todo jeito fica molinho e bom, e fui fatiando em tiras finas que temperei com pimenta em pó, sal, cominho e shoyu. Uso shoyu em muitas coisas, dá cor. Eu tenho tendência a misturar temperos demais, estou me controlando. Carne temperada, coloquei água pra cozinhar o macarrão. Eu não coloco nada na água, nem azeite nem sal, porque nunca tenho certeza se o molho virá no ponto. Voltei pra carne, numa frigideira fui flambando porções da carne com azeite e cachaça e despejando numa panela maior (já com fogo aceso também). Deixei a carne pegar gosto, soltar água e completei com leite (até cobrir) e aí é só o fogo fazer sua parte: cozinhar. Enquanto isso o macarrão ficou pronto: escorri e pus um pouco de azeite pra não endurecer, pregar, etc. Quando a carne estava molinha, molinha, joguei um bocado de gorgonzola na panela e deixei desmanchar (ai, delícia), ao mesmo tempo torrei bacon na frigideira ao lado e coloquei na mistura final. Despejei tudinho sobre o macarrão, completei com manjericão em pó (eu estava desejando manjericão, ah, estava).

Nem sempre é fácil. Nem sempre a gente encontra o que precisa. Nem sempre dá pra rir. Nem sempre é vermelho e vivo. Já era um alerta: viver é muito perigoso. Nem sempre eu consigo isso de viver. Às vezes fico gelada. Fico triste com o imponderável horror ou com raiva dos machismos mínimos de cada dia. E eu penso: não dá. Mas dá. Se não é em riso e rubro, dá pra ser morno. Dá pra reencontrar o sabor. É nisso que tento acreditar, todo dia, todo dia. É isso que renova o sorriso. É isso que faz seguir, escolher tempero, acender o fogo, escrever, viver.

No fim já estava dando pra me balançar com essa música aqui. Escuta, vai.

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Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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5 respostas para Menos Só ou Na Cozinha com Baleiro

  1. annerodrigues disse:

    Lu, não tem como plantar um pé de manjericão num vaso e deixar na varanda?
    Olha manjericão fresco é tudo. Eu não entendo nada de horta, mas minha sogra tem uma e sempre que preciso vou no jardim e cato uns temperinhos bacanas, fresquinhos.
    Essa história de viver não é fácil. Nada fácil. Tem dias que nem levantar da cama consigo, quer dizer, atualmente levanto.

  2. Anne, querida, eu tinha mesmo no meu ap em Fortal. Acho que quando for me sentindo mais enraizada, terei. Eu também não entendo nada de horta só tinha o manjericão porque foi presente 😛

    Mas no fim das contas, até que saiu tudo bom \o/

  3. eu já te disse que admiro essa tua capacidade de ser feliz?

  4. Lady, de tentar, lady, de tentar…

  5. dida disse:

    olá, conheci o site há pouco e o seu texto mais do que me tocou. amo zeca, amo cozinha, e a cidade em que moro… essa amo só quase-sempre. e a porção que falta é o contrário da sua: sinto saudade da não-oferta, ando farta da solidão da metrópole… enfim, disso entendo. nisso seu texto me pegou. sei dos embalos que nos doem em fins de dias sós (pós, para concordar com baleiro), acompanhadas ou não… beijo!

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