Acendendo o Fogo: Borboletas na Cozinha #1

Era uma vez: ela. Ela é às sextas. Ou ainda, ela é sempre que dá, mas dia de sexta se convida a ser mais. E é. Dia de sexta ela dança na varanda. Porque é preciso espaço para o corpo que se esquece em diário afazer. É dia de sexta que ela vai pra cozinha com vontade de fazer. O quê? Risos. Ela inventa na cozinha que é uma fartura. Ela brinca com seu liquidificador/multiprocessador. E faz sanduíches de vários tipos e sabores pra agradar seu filho. Ela gosta de ficar na cozinha, sentir sabores, texturas, cheiros. Um dos seus prazeres é organizar a prateleira de temperos, que às vezes estragam porque são tantos e tantos que não se usa todos. Ela viaja pra fazer o mercantil. De biquini, dirige 250km só pra comprar peixe fresco. Ela experimenta, combina, erra na cozinha. E, finalmente, descobre o que significa colocar a massa pra descansar.

Geladeira grande. O que não deveria faltar (mas falta): camarão, leite, queijo gorgonzola, suco de lichia, presunto, melancia, azeitona, mussarela de búfala, iogurte. Fogão 4 bocas. E temperos. Para a língua: cebola, páprica, curry, azeite. Para o quadril: espaço e movimento. Para os ouvidos: tango, Simonal, samba, ópera. E pro juízo? idéias de futuro, sonhos de igual, querenças de liberdade. Ela tem teimosias: comida é prazer. Nem sempre é saudável. Nem sempre é bonita. Nem sempre é sempre.

Dia de sexta ela dança na varanda, dia de sábado ela brinca de fazer em letras o que fez em sabores. Alguém dirá: receitas. Ela sacode os cabelos e diz: caminhos.

Hoje não é sábado nem dancei ontem. Mas não queria acender o fogo e deixar a barriga vazia. Vai o primeiro sabor (que já foi enredo também aqui):

Abre a geladeira e vê o que tem. Camarões. Se foi sabida, reservou uns descascados. Pega o camarão nuinho e tempera com sal, curry e canela. Deixa o danado descansar e abre a torneira da banheira. Acende velas e coloca um disco (tangos imortais é uma excelente pedida). Abre uma cerveja. Vai bebendo. Depois de acompanhar o nível da água em relaxante nada pensar, coloca sabonete líquido e manda brasa na hidromassagem. Quando tiver fazendo bolhinhas e espuma, desliga e vai tratar o camarão. Abre outra cerveja. Bebe a cerveja. O camarão vai ficar com inveja, dá uma colherinha de shoyu pra ele. Azeite, quente, bem quente, e deita o camarão dentro. Rosinha dum lado, rosinha do outro, coloca uns cogumelos na quantidade que gostar (eu gosto de muito), deixa pegar gosto. Bebe mais cerveja, olha se tem um restinho de vinho branco na geladeira, tem, derrama lá na frigideira. Daí dois caminhos:

1. Pega uma porção de folhas de manjericão e coloca tudo em cima e uau, como fica bom.

2. (o que eu fiz) Junta uma colher daquele molho de tomate que você faz (ou compra) e meia colher de requeijão. Fica um molhinho grosso. Despeja em um prato fundo (meu pai chama de cacimbão e daí eu também chamo, claro, complexo de Édipo, a gente vê por aqui) rebola batata palha em cima pra dar contraste de textura. Dois pãezinhos de leite pra quando terminar limpar o prato e tá bem arrumado.

Arruma ao lado da banheira um banquinho pra colocar a gostosura. Prato numa mão e a cerveja na outra. Reinicia o cd.

Substituições: banheira por chuveirão no quintal, chuva ou banho de cuia em qualquer lugar da casa; cerveja por vinho como acompanhamento, tango por qualquer ritmo preferido (mas não recomendo samba, os camarões tendem a se jogar fora da frigideira com um bom bum-bum-bate-cum-bum).

 

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Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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19 respostas para Acendendo o Fogo: Borboletas na Cozinha #1

  1. Cecilia disse:

    Querida, que luxo inaugurar a cozinha das Feministas com post seu, só poesia, música, aromas e bolhas de sabão!

  2. Liliane disse:

    Uia,
    Eu que nem gosto de camarão, fiquei até com água na boca!!
    beijos

  3. Bom quando as palavras se assemelham a cheiros e sabores e causam tal efeito. Bjs!

  4. Este blog é uma delícia (com todos os segundos e terceiros sentidos possíveis). Luxo conviver com vocês.

  5. Thaís disse:

    Virei sempre me deliciar!!

  6. Delícia é receber seu comentário!

  7. Sara Joker disse:

    Nossa, camarão é uma ótima pedida… com manjericão, fica melhor ainda!

  8. Vai aparecer um montão de camarão nessa coluna porque é “facin” de fazer, dá pra variar um bocado e combina com cerveja que é uma beleza…

  9. Pingback: Feministas na Cozinha!Blogueiras Feministas | Blogueiras Feministas

  10. Renata disse:

    Seu comentário me “marejou”.
    Marejaram os olhos, de tanta delicadeza de ler tanta prosa poética.
    Marejou a boca, de saliva, salgada como a água do mar, como o gosto de camarões frescos!
    Marejou também a alma inteira, repleta das sensações que você descreveu.
    Transbordei de apetite, apetite pela vida, pela amizade, pela beleza compartilhada.
    Grata, muito grata, por tanto mar que você trouxe até para cá, para o coração das Geraes….
    Bjs

  11. Fernanda Marinho disse:

    Nossa! Que delícia!
    Me deu muita vontade de seguir a receita. Mas estou com aquele probleminha chamado de falta de casa própria. Se eu colocar qualquer coisa na panela e sair de perto, quando eu voltar corro o risco de 1. a comida ter sido comida, 2. a comida ter sido jogada fora, 3. a comida ter sido dada para o cachorro.
    Quando conseguir, comemorarei com uma delícia dessas 🙂
    Adorei o post. Me deu uma sensação muito boa!
    Beijão

  12. Renata,
    prazer imenso fazer mar com você. Eu me alimento de muito e uma das iguarias prediletas são palavras assim como as suas. Um obrigada feliz e um volte sempre verdadeiro.

  13. Fernanda, no próximo post vai ser comidinha pra ruma, cê vai ver. Ainda estou matutando. Isso posto, quando tiver casa e comida própria não esquece azamiga 😉

  14. Barbara Manoela disse:

    Camarão combina com praia, sol, vinho, amor, dança, sexo, bolhas de sabão. Camarão combina com amor, com banho de espuma.
    E camarão combina com Fernando de Noronha tb. =)

    Ai, me deu fome agora.. ahahahah!

    beijo, minha linda

  15. Eu concordo com (quase) tudo. É que eu tenho birra de Fernando de Noronha, 😉
    Beijos e que bom seu comentário aqui cheirando a gostoso.
    Beijo

  16. Thayz disse:

    Ai Lu, quero morar com vc. Pode? Que delícia esse post!

    Beijo!

  17. Vem morar sim, baby, a gente come camarão duas vezes na semana, \o/

  18. Fernanda disse:

    Amei a receita! Fazia tanto tempo que não ouvia um tango… Obrigada
    Ah, você escreve divinamente! Parabéns!

  19. A delícia maior é saber fazer uma receita tão parecida com o velho “frango com cerveja” , e nem tinha notado como ele combina com tango !

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